Desde sempre as crianças, não sei porquê (e porque também por lá passei) tinham a pancada de na hora da refeição, teimarem que não queriam acabar o prato de sopa, ou quando era um prato de bacalhau ( meu caso) faziam um berreiro descomunal, porque aquele prato não lhes cheirava de feição. Na hora de ir para a cama repetia-se o ritual de gritaria.
No meu caso lembro-me que lá por casa me diziam:
- Come a sopinha senão chama-mos o Sr. Polícia e ele leva-te para a prisão..."
Tendo em conta que o meu pai é Guarda Prisional, isto até tinha razão de ser mas, pensando melhor porque é que o meu pai que na altura trabalhava em Lisboa, ia pagar meio bilhete ou o que fosse, para me levar preso para Lisboa só por causa de um prato de sopa ou de bacalhau, vá lá?!?!?!?!?! Só o trabalho de levar o moço, fazer 'check in' e ter que o trazer depois de umas semanas no "Hotel" (como lhe chama o meu pai), não valia o esforço...
Não era grande ameaça e se calhar por isso não resultava em grande coisa. Enfim....
No entanto, acho que quase todos nós quando éramos crianças tínhamos os medos de estimação, figuras que davam razões para acabar o prato de sopa de feijão verde ou de caldo verde, para ir dormir ou só para estar quieto.
A minha avózita (com quem eu passei grande parte da minha infância) recorria quase sempre aos mesmos, mas que, regra geral resultavam.
Aqui fica o Top 3:
O Papão - na hora de ir dormir, este era eficaz. Depois de andar a tarde toda a fazer porcaria e de querer continuar a fazê-la pelo serão dentro, bastava ouvir: "- Filho, olha que o bicho Papão está lá fora. Tens de ir para a caminha fazer 'ó-ó' (expressão em voga quando era para mandar os garotos para vale de mantas). Senão fores, vou abrir a porta e o Papão vem... (nesta altura, fralda puxada para cima, já eu estava á porta do quarto, a olhar para a porta da entrada. Beijinho na testa e caminha, esperando que o Papão não se viesse esconder debaixo do estrado de cama. Opá!!!!
O Homem do saco - este não sei de onde veio, mas era usado quando a paciência já se estava esgotar por parte dos adultos. Depois de uma tarde a fazer javardice e os crescidos com os timpanos dormentes das birras e berreiros, bastava ouvir "vou chamar o homem do saco", que o silêncio imperava imediatamente.
A Côca - este sim era um habitual lá por casa e não querendo estar a errar, um original ( pelo menos lá em casa) da minha avó. A Côca era uma espécie de bicho Papão, mas não sei porquê metia-me mais medo. O prato da sopa voava pela goela abaixo,e às vezes até repetia. Mas hoje, já com uns anitos a mais no bucho, acho que finalmente percebo o que era a Côca. Tendo em conta que apenas muda a acentuação, a Côca podia ser 'Cóca'( de cocaína) e quem me vinha assustar se eu não comesse, era afinal um drogado. Não deixa de ser assustador para a altura. Um mocado a olhar para mim e a tripar, nessa altura era suficiente para enfardar o que quer que fosse...
Aos melhores anos da nossa vida e de outros que hão-de vir....





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